Frente Negra Pelotense (FNP) foi uma entidade criada na década de 1930, cujo propósito era a união e a defesa dos ideais e direitos da população negra brasileira, de modo a fortalecer, sobretudo, a ideia de que a educação seria o caminho para a ascensão social do negro no Brasil. Alinhada aos interesses da Frente Negra Brasileira, sendo o braço sul-rio-grandense da entidade, a FNP influenciou fortemente a criação da Frente Negra Pernambucana.

Contextualização Histórica O Rio Grande do Sul enfrentou momentos de amplo desenvolvimento na primeira metade do século XX, quando o denominado “mercado sul-rio-grandense” ganhou forma no estado. Assim, torna-se importante mencionar que havia disparidades entre as diferentes zonas produtivas da localidade, tendo como destaques Porto Alegre e Pelotas, respectivamente em crescimento e decadência econômica. Para alguns estudiosos, esta decadência se deve à baixa dimensão e capacidade de mercado da região sul, de forma que Pelotas enfrentou o desaparecimento de empresas, a falência do Banco Pelotense e uma crise pecuária. Tendo seu desenvolvimento sido feito em cima de produtos como a charque, com a crise, os charqueadores se viram sem mercado. Ao abordar questões como o desenvolvimento urbano de Pelotas, Beatriz Loner traz dados interessantes sobre as características sociais do local, como o decréscimo do percentual de negros e pardos da cidade, que em 1891 era de 30,7% e, já nas estatísticas de 1940, período pouco posterior à criação da Frente Negra Pelotense, a porcentagem era de 14,9% de negros ou pardos. No entanto, mesmo com um percentual considerado baixo, a cidade de Pelotas foi cenário para a construção e difusão de uma ampla rede de associativismo negro, contando com muitas entidades e associações negras recreativas, não recreativas, esportivas e carnavalescas.

Origens Criada por José Adauto Ferreira da Silva, Carlos Torres, José Penny, Miguel Barros e Humberto de Farias, a Frente Negra Pelotense teve sua fundação em 10 de maio de 1933. A entidade defendia fortemente a educação à população negra, como é exemplificado através de iniciativas como a “Cruzada do livro”, que culminaria em uma biblioteca da própria entidade, fortalecendo os ideais de “união, instrução e educação”, defendidos pela FNP. Torna-se importante mencionar aqui que, embora criada com inspiração no movimento nacional, isto é, consequente à Frente Negra Brasileira, a entidade pelotense não nutria intimidade com o movimento integralista. Muitos dos ideais e defesa da Frente foram feitos através do jornal A Alvorada, um importante semanário negro de Pelotas, que resistiu até a década de 1960. Segundo Natiele Mesquita, entre os redatores e articuladores do jornal estão os irmãos Juvenal e Durval Penny, Rodolfo Xavier e Antonio Baobad, Armando Vargas, Carlos Torres, Dario Nunes, Humberto de Freitas, Ivo Porto e Miguel Barros; desta forma, torna-se ainda mais evidente o caráter do periódico enquanto porta-voz da Frente pelotense, uma vez que os membros que o compõe, também são integrantes da entidade, e militantes do movimento negro. De acordo com Arlison dos Santos, o diferencial da entidade é justamente o alinhamento com associações sindicais. Isso é um fator importante, considerando que os operários negros operavam uma “dupla militância”, de raça e classe, organizados em associações classistas. Outro fato é que ex-escravizados foram incorporados no sistema de industrialização de Pelotas. Um dos participantes do periódico mencionado acima, Antonio Baobad, foi um trabalhador cativo que comprou a própria liberdade em 1880 e foi alfabetizado em um curso noturno da Biblioteca Pública Pelotense, iniciativa responsável pela alfabetização de outros integrantes também, como Rodolfo Xavier e os irmãos Penny. Já Natália Pinto e Adriana Leon destacam a Campanha Pró-Educação empreendida pela Frente Negra Pelotense, presente em tudo o que a entidade defendia, através do periódico A Alvorada. Além de valorizar a educação por meio do jornal, este era utilizado para pleitear o espaço acadêmico, sendo considerado propício para a população negra e, portanto, importante para o seu desenvolvimento. Nesse contexto, envolvia-se também a questão da instrução da mulher negra, que, diante desse cenário, seria responsável por educar e desenvolver as crianças rumo a um futuro melhor; entre os seminários promovidos pela entidade, estava o “A mulher negra e o futuro da raça”.

Estatuto O estatuto da Frente Negra Pelotense foi dividido em tópicos a fim de apresentar um panorama geral sobre a entidade, mencionando seus objetivos, sócios, administração, assembleias e patrimônio social. No documento, está entre as atribuições dos sócios “propagar o espírito associativo da raça preta” e um dos pré-requisitos para a ocupação desta categoria é interessar-se pelo desenvolvimento intelectual da raça. Aqui, já é possível aferir características essenciais à formação da Frente: seu propósito de educação e engrandecimento da raça e a busca pela coletividade e solidariedade, alinhada ao seu caráter associativista. Já na seção que trata dos objetivos da FNP, esta é descrita como uma “associação cultural e educacional”, que se deve ao propósito de realizar diferentes atividades sociais, como palestras e seminários. Tendo como principal objetivo a “instrução, educação e elevamento da raça negra”, a entidade visava amparar os sócios, seja de forma judiciária, médica ou hospitalar, para além dos ensinamentos teóricos e morais. Assim, entre as pretensões da Frente estava a organização de palestras, bibliotecas, cursos (noturnos e diurnos) de alfabetização e demais iniciativas afins, de modo a unir uma coletividade negra em prol de sua ascensão social.

Associativismo Negro no Rio Grande do Sul O século XX foi marcado por movimentos e ações construídas pela população negra do Brasil para dar início a uma superação dos estigmas deixados pela escravidão, que a colocavam como inferior aos demais grupos sociais. Desta forma, é preciso ressaltar que cultura e educação foram duas das principais áreas nas quais se investiu para essa dita superação, de forma a unir lazer, resistência e intelectualidade. De acordo com o historiador Petrônio Domingues, mesmo durante da escravidão, os africanos e afro-brasileiros desenvolveram diversas formas de associação: jornais, espaços de religiosidade e outras associações voluntárias a fim de, mediante condições adversas, suprir sua religiosidade e cultura. No período pós-abolição, não foi diferente, de modo que a própria compreensão acerca desta expressão representa a edificação de identidades raciais, concomitante aos processos de construção e desconstrução atravessados pelos negros, cerceados pelo estigma da escravidão. Com isso, a formação de teatros, clubes, cursos, concursos de beleza e associações políticas representam a resistência e autonomia, como forma de existência coletiva.

Referências